O acúmulo de poder conquistado pelo estatus de uma pessoa acaba levando-a a acreditar que ela tem posse também de vidas humanas. Essa falsa crença levou o desembargador Visgueiro a crer que ele era dono de Mariquinhas, ainda que ela negasse as suas investidas amorosas. Isso ocorreu até que a jovem sumiu. Inconformada com o seu sumiço, mulheres se reuniam pra investigar o ocorrido, recusando a aceitar a primeira desculpa esfarrapada com que se defrontariam. A Ira Editora publicou esse quadrinho em 2026.
Essa obra é fruto de uma pesquisa que virou tese de doutorado da roteirista maranhense Nila Michele Bastos Santos. Como ela mesmo afirma no prefácio da obra, a narrativa dessa é conduzida não pelo protagonismo do vilão mas a partir da perspectiva das mulheres que não se conformaram com o sumiço da personagem que dá título a obra. O início da obra é uma narrativa direta dos acontecimentos que sabe deixar a leitura interessante. Eu destaco a maneira como a violência aparece de maneira sutil mas não menos terrível, quando a gente percebe o que aconteceu ali. Isso porque violência contra mulheres é uma saída fácil para a condução da trama para gerar um fácil engajamento na trama. Assim a obra mostra que há outras possibilidades de narrativa mantendo a sua qualidade sem apelar para a representação nítida da violência.
Os desenhos do maranhense Marcos Caldas trazem personagens bem expressivos, mas esse significativo detalhe ainda não é o que me chama mais atenção. Você precisa ficar atento mesmo é a ambientação dos acontecimentos. Os detalhes dos prédios e os seus lindos azulejos, o mobiliário das casas, as roupas dos personagens e os veículos ali presentes. Tudo isso mostra uma preocupação com a pesquisa para fazer o leitor imergir numa cidade de dois séculos atrás. Além disso, um outro detalhe da narrativa visual que pode confundir o leitor menos experiente com a linguagem dos quadrinhos, é que ao final o clímax vai sendo narrado em meio as lembranças de outro personagem e é preciso notar a sutileza da diferenciação de acontecimentos ocorridos em períodos temporais diferentes.
Mariquinhas é um excelente quadrinhos fruto de uma pesquisa minuciosa que, a partir da vida real de uma personagem, propicia reflexões a cerca da diferenciação entre pessoas a partir do gênero. Além disso, é possível pensar no excesso de benesses do poder judiciário que favoreciam inclusive crimes cometidos por magistrados, apenas nesse ano é que o STF publicou liminar em que proíbe punição a juízes com aposentadoria compulsória . Nesse mesmo ano, discute-se no Congresso punições mais duras para quem promove ideias misóginas e que incomoda muito parlamentares de direita que se apresenta como conservadores. Em vista disso, é preciso reconhecer que mesmo essa obra tendo sido ambientada em 1873 ainda dialogue com a realidade atual e mostre que ainda em 2026 as vozes femininas são necessárias para não perdurar o silêncio sobre os absurdos cometidos por homens. Espera-se que um número maior de homens reconheça e contribua para a construção de uma sociedade equânime em direitos quanto ao gênero.
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