Aurora foi uma criança negra que sobreviveu com dificuldade a uma vida de miséria nos anos 40 no Século XX. Ao crescer, ela teve que morar muito cedo em "casas de família", uma maneira que justificava o trabalho infantil na época. Até seria bom se fosse trabalho mas o fato é que moradia e comida já justificava não ter salário. Eu conjuguei anteriormente o verbo justificar no passado mas infelizmente eu me deparo com essa mesma realidade em 2026, mostrando que uma história de época infelizmente continua trazendo uma realidade atual. A Editora Darkside publicou essa obra em novembro de 2022.
O paulista Rafael Calça mostra nessa obra gerações de mulheres negras que sobreviveram aos desafios da vida de maneira bem parecida ao longo do Século XX, a mudança de vida se dá no Século XXI, cujas oportunidades educacionais possibilitaram mudança de vida, ainda que com muito esforço. Calça acaba escrevendo o roteiro da vida das mulheres negras que levaram esse país nas costas, chefiando boa parte das famílias, já que os homens estavam ausentes por diversos motivos: não querer assumir as responsabilidades de uma família, uso abusivo de drogas (lícitas e ilícitas), estar vulnerável a violências (inclusive de um Estado ditador), serem obrigados a trabalhar em locais distante do seu lar...
Para a parcela ignorante que vivem no Sul e Sudeste do país, é muito fácil orgulhar-se de que o seu desenvolvimento é "fruto do trabalho" quando o Estado brasileiro, motivado por uma ideologia racista, decidiu dar uma estrutura favorável para esse desenvolvimento enquanto deixou os filhos dos escravos libertos a esmo, dando a eles apenas a possibilidade de serem presos com a absurda "Lei da Vadiagem". Ainda que não houvesse terras e consequentemente trabalho para todos, os negros encontrados nas ruas sem uma carteira de trabalho assinada, poderiam ser presos. De um lado algo que poderíamos chamar de um "Bolsa Imigrante" com terras, estradas para escoamento e a garantia de venda do que é produzido. Do outro lado, um povo que cabia servir aos descendentes dos senhores de escravos e morar em locais improvisados para sobreviver com o que fosse possível.
A realidade das "Auroras" não é nada atraente. Até por isso que o traço sujo do paulista Diox mostra tão bem essa realidade. O artista possui personagens bem expressivos e capricha na ambientação das casas onde as histórias acontecem trazendo nos móveis e roupas muito do que havia na época.
O Fim da Noite é uma ótima obra. Eu senti que os diversos cortes da passagem do tempo impossibilitaram em aprofundar na dramaticidade da cena. Quando eu começava a sentir o sofrimento do personagem, era arrancado para ver o que ocorrera anos depois dali. Isso poderia ter sido melhor caso o texto fosse mais explorado com uma argumentação profunda. O que mais me chama a atenção é a proposta de mostrar como a vida é cíclica e em que momento ocorre essa quebra. É exatamente aqui que fez a leitura valer a pena.
Ficha técnica:
Publicado em: novembro de 2022
Licenciador: Rafael Calça e Diox
Categoria: Álbum de Luxo
Gênero: Drama
Status: Edição única
Formato: (16 x 23 cm)
Preto e branco/Capa dura
Preço de capa: R$ 54,90
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