A literatura tem como referência vários homens brancos. Isso não foi fruto apenas do fato de serem eles que tinham acesso ao conhecimento por séculos, mas contribuiu para isso, o apagamento do talento feminino. María Firmina dos Reis é um exemplo disso. Apenas em 1973, por acaso, foi descoberta essa obra escrita em 1859 que está indubitavelmente entre as grandes obras da época. Esse quadrinho traz um pouco da biografia da escritora mas o foco mesmo é a adaptação de sua obra considerada a primeira obra a tocar no tema da escravidão, isso vindo da primeira escritora negra que se tem notícias. A Editora Sete Cores publicou essa obra em abril de 2022.
O roteirista maranhense Iramir Araújo tem a proposta de divulgar o romance através de uma adaptação em quadrinhos que traz uma linguagem mais acessível, fazendo com que diminua a resistência em conhecer a autora e a sua obra. Inicialmente isso não funciona muito bem nesse quadrinhos. Isso porque a característica mais atraente no romance em prosa é a maneira como a história é contada através da habilidade no uso da língua que a autora possui. Quando se enxuga a linguagem, a impressão inicial é que se trata de uma história banal. Porém no meio da obra, principalmente quando o vilão revela as suas intenções a protagonista, é que Iramir aproveita o melhor desse diálogo e daí pra frente encontramos vários outros momentos em que o texto nos prende pela a sua beleza. Além disso, a sequência dos acontecimentos na segunda metade da obra gera uma tensão maravilhosa fruto de uma eficiente adaptação da trama da obra.
Os desenhos dos maranhenses Rom e Ronilson Freire trazem um toque realista e sutil a obra. Contudo isso não impede o movimento dos personagens. O que me chamou a atenção foram as paisagens naturais que são tão detalhadas que é possível perceber bem a fauna e a flora da época. Com relação aos personagens, o meu destaque é a representação da insanidade do vilão nas suas feições. Ainda que as emoções dos personagens estejam na intensidade correta, foi um acerto narrativo mostrar o quanto a mente obcecada é capaz das maiores atrocidades com um personagem que consegue passar medo no seu olhar e no seu sorriso grotesco.
É interessante que a obra traz uma introdução sobre a história da autora Maria Firmina dos Reis, já que é curioso o fato de como uma mulher conseguiu se destacar numa época cujo machismo era bem mais intenso. Isso nos faz refletir sobre o quanto de apagamentos ocorreu e continua ocorrendo, excluindo grandes obras de serem acessíveis. Por isso, além de republicar as obras de autoras com esse talento, é necessário adaptações em outras mídias, para que ainda mais pessoas sejam impactadas a ponto de querer conhecer a obra original.
Maria Firmina dos Reis - Úrsula é uma excelente obra que consegue transmitir a beleza do texto dessa grande romancista brasileira. Felizmente os autores perceberam no desenvolvimento a importância de aproveitar a beleza dos diálogos originais. Por isso essa é uma obra pra se degustar demoradamente para poder curtir não só as reviravoltas da trama, mas a beleza que a nossa língua proporciona demonstrando o talento que foi esquecido apenas pela escritora ser uma mulher negra.
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