Essa obra traz as recordações de um médico português em Rondônia. Ele atendeu num hospital de campanha durante a pandemia de Covid 19. Um momento em que o mundo se via assombrado por uma moléstia inesperada e que por isso mal sabia o que poderia ser feito. Ainda assim profissionais arriscaram as suas vidas para fazer o possível para salvar outras pessoas. Naquela época, era proibido adentrar no leito de uma UTI e a obra possibilita que a gente veja os detalhes de tudo aquilo que aconteceu em um hospital e, com isso, vivenciar as angústias de quem estava por lá. A Editora Comix Zone publicou esse quadrinho em agosto de 2025 e em outubro de 2026 ela ganhou o Prêmio Literário Biblioteca Nacional na categoria quadrinhos.
É bem verdade que os anos de pandemia foram tão traumáticos que muitos recusam-se a lembrar daquela época, por isso atualmente obras sobre o assunto são inviáveis. Isso é um grave erro porque houve uma dissociação entre a responsabilidade do Estado e a disseminação do vírus. Isso fez com que a sociedade compreendesse que a tragédia que ocorreu foi independente das ações de governo. Um estudo realizado pela UFRJ mostra que o número de mortes no Brasil foi bem acima da média em comparação com outros países. No nosso país a pandemia iniciou após a ocorrência na China, Europa, EUA e alguns países da América Latina, enquanto isso, estudos foram financiados que demonstravam a eficácia do uso de máscaras e isolamento social para impedir uma tragédia ainda maior, a ineficácia de medicamentos como a hidroxicloroquina e ivemectina e a importância de ter órgãos estatais da saúde tanto para tratar dos doentes quanto para passar orientações para evitar a disseminação do vírus. No Brasil, o governo federal sob a presidência de Jair Bolsonaro fez exatamente o contrário como ele mesmo falou, além de combater o distanciamento social, ele foi contra o uso de máscaras, defendeu o uso de medicação mesmo após a OMS ter provado a sua ineficácia, mudou por diversas vezes de ministro da saúde no período por não seguirem as suas determinações e nas suas transmissões ao vivo debochou de quem chorava por quem morreu e de quem sofreu com falta de ar . O somatório disso tudo, que era amplamente reforçado por seus apoiadores, expôs ainda mais pessoas ao vírus e levou ao exorbitante número de 700 mil mortes, que só chegou a ser anunciado devido ao levantamento dos veículos de imprensa, já que o Ministério da Saúde havia parado de divulgar o número de mortos. Essas atitudes criminosas deveriam ter sido punidas com uma investigação do porquê do excessivo número de mortos no Brasil e com uma condenação pelo menos do presidente por isso, mas nada disso aconteceu, pelo contrário, por muito pouco ele não foi reeleito presidente e o seu filho está prestes a se eleger.
O médico português Luís Moreira Gonçalves lecionava química na USP quando se dispôs a trabalhar em Rondônia para o atendimento de paciente de covid em 2021. Aqui ele traz relato pessoal em atuar em procedimentos que ainda não fora treinado e que teve que aprender na hora o que fazer. A situação política no país é citada discretamente assim como a diversidade de atitudes de colegas de profissão que foram influenciadas por isso. Na leitura eu senti falta do roteirista ter colocado em argumentos as suas emoções e pensamentos, já que o roteiro aprofunda-se na sua atuação como médico e deixa a cargo dos desenhos os momentos mais dramáticos.
Aliás o traço é do carioca Felipe Parucci que à primeira vista aparenta ter um traço amador, devido a simplicidade do seu estilo mas que surpreende quem como eu pensou assim, já que a sua narrativa é bárbara e é o grande destaque da obra. Eu fico impressionado como é possível fazer tanto em termos de representação de ambiente e até mesmo profundidade de objetos com tão pouco traço, aquilo que parece ser só um rascunho transmite a visão e a imaginação dos fatos narrados no roteiro.
Dormindo Entre Cadáveres é uma excelente obra principalmente pelos desenhos. Contudo não se pode negar a relevância do roteirista nos colocar à par de situações que ficaram desconhecidas entre as paredes de um hospital de campanha. Obras como essa são de grande relevância para documentar um acontecimento atroz cuja vacina não imunizou a sociedade de isso acontecer novamente, por isso a importância de saber o que funcionou e o que fracassou para impedir um novo massacre. Infelizmente não saímos melhores da pandemia de Covid 19 e evitar pensar sobre o assunto traz o apagamento que favorece apenas a má compreensão dessa experiência.
Ficha técnica:Licenciador: Felipe Parucci
Categoria: Graphic Novel
Gênero: Drama
Status: Edição única
Formato: (17 x 24,5 cm)
Preto e branco/Capa dura
Preço de capa: R$ 124,90
Leia também da Editora Comix Zone
O Retorno do Messias - Versículo 1
O Eternauta 1969 - o clássico argentino redesenhado por Breccia



Comentários
Postar um comentário