Mafuta e a Melodia Esquecida + A Baía do Inferno

 

Capa de Mafuta e a Melodia Esquecida + A Baía do Inferno publicado pela Editora Poptopia

Após 4 longos anos sem que houvesse publicação de quadrinhos africanos no Brasil, a espera finalmente acabou e esse quadrinho chegou. Trata-se de uma obra em formato flip flop, isto é, de um lado é uma obra e do outro mais uma hq. Em Mafuta e a Melodia Esquecida, uma ameaça de invasão faz a aldeia convocar seus vizinhos, inclusive os adversários de guerra, para unir-se contra um perigo que poderia afetar a todos. A garota Mafuta, incapaz de contribuir para evitar tal tragédia, resolve recorrer a seus deuses Nkisis por ajuda. Já em A Baía do Inferno, Bobo enfrenta policiais para ajudar um parente e por isso precisa sair da cidade, no caminho da sua canoa, ele se depara com piratas invadindo um navio. Essa obra foi publicada pela Editora Poptopia em 2026 e foi selecionada entre as obras do projeto Banda Desenhada de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (BDPALOP).

Eu acho uma injustiça haver um hiato tamanho sem publicação de quadrinhos africanos. Ainda que estejamos num momento de busca de uma cultura e saberes decoloniais, a meu ver a publicação de quadrinhos de países do continente africano vai além disso. Incomoda-me o fato do editor selecionar a hq a partir de um projeto português, como se fosse necessário uma validação branca, contudo é fato que os quadrinhos africanos serem um mistério no Brasil e é preciso que a referência para a escolha do que publicar venha de algum lugar. Tendo milhares de pessoas que foram aprisionadas para serem escravizadas aqui, os países da África fazem parte das nossas raízes e, sem a busca por elas, a nossa identidade está incompleta. Eu entendo a fascinação do mundo sobre as narrativas japonesas mas a África juntamente com os diversos povos indígenas brasileiros e mais os invasores portugueses,  compõem a maior parte daquilo que a gente entende enquanto nação e por isso conhecer apenas a cultura do colonizador não cobre toda a nossa complexidade. Dito isso, acho uma pena essa edição trazer paratextos que desconhecem que a África não é um país e possui 54 deles. Eu digo isso porque a Editora Poptopia não identifica de qual país é Mafuta e a Melodia Esquecida e cabe a mim pesquisar no Google que os autores são angolanos. Caso a Editora continue com as publicações de obras do continente, que ela corrija esse erro. Uma outra sugestão se dá em utilizar notas de rodapé, já que a edição fez a correta escolha de deixar alguns termos angolanos, não custa colocar o significado em notas.

Página interna de Mafuta e a Melodia Esquecida


Mafuta e a Melodia Esquecida

Para quem como eu, que desconhece a sabedoria angolana, essa história lembra uma fantasia, até porque o roteiro de Cremilda Fula tem como narrativa algo similar a uma ficção que insere elementos da cultura local. A autora se expressa muito bem sobre a sequência dos acontecimentos e me chama a atenção a complexidade que é lidar com diferentes povos, ainda que ocupem o mesmo território. Esse conflito também é percebido em outros países do continente. No dia anterior que eu escrevi esse texto, assisti o documentário The groove under the groove:os ritmos de Paulinho da Costa. No filme um músico explica ao Paulinho a origem do tambor, história que tem tudo a ver com esse quadrinho. 

Os desenhos de Lopes José são cartunescos com personagens bem próximos aos de uma animação infantil. Isso é bem adequado para uma obra que pode ser lida por público de qualquer idade. As paisagens são muito lindas e as casas nas árvores enormes, ressaltando a ligação daquele povo com a natureza. Eu acho interessante como ele borra a imagem digital para passar uma ideia de velocidade que funciona na leitura. 

A Baía do Inferno

Bobo foi chamado para ajudar um cunhado que estava jogando apostado com policiais mas cujo o resultado foi desfavorável para as autoridades. Ao salvar o seu familiar, Bobo soca um dos policiais e por isso precisa sair da cidade por uns tempos. A sua canoa o leva a se deparar com navio invadido por piratas e lá ele precisa fugir e voltar para a sua comunidade para avisar do perigo. 

A roteirista cabo-verdiana Edna Cardoso traz uma aventura de piratas com uma trama rápida permeada de acontecimentos interessantes. Eu achei a solução para o final decepcionante mas a maior parte da obra é emocionante. 

O que eu gostei realmente foi da personalidade no traço do desenhista cabo-verdiano Hegui Mendes. Como ele traz elementos da caricatura nos seus personagens, eles acabam sendo muito expressivos e, por isso, mesmos as emoções exageradas estão adequadas a proposta. Além disso o seu traço tem muito movimento e ele sabe utilizar muito bem isso nas lutas. É preciso ficar atento na faixa etária que vai ler essa história, já que há cenas de violência que algumas famílias podem considerar impróprias para crianças, diferente da obra anterior que pode ser lida por pessoas de qualquer idade. 

Veredicto

Mafuta e a Melodia Esquecida e A Baía do Inferno são histórias excelentes, apesar do final dessa última. São duas propostas bem diferentes com a primeira ligada as lendas de Angola e a seguinte uma aventura com piratas. Um outro aspecto relevante é o fato de ambas serem escritas por mulheres roteiristas, algo que costuma ainda ser visto num número menor que o necessário em obras, seja por apagamento ou seja pelos quadrinhos, com uma narrativa ainda voltada para agradar homens no universo dos super-heróis, afastem mulheres dessa arte, havendo assim um número menor de artistas do que potencialmente poderia haver. Por serem obras com roteiro e obras bem trabalhadas, é uma excelente leitura que eu recomendo para jovens leitores e além, eles tendo ou não grande experiência na leitura em quadrinhos.  

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Página interna de A Baía do Inferno

Ficha técnica: 

Publicado em: abril de 2026

Editora: Poptopia
Licenciador: sem licenciador
Categoria: Graphic Novel
Gênero: Adaptação
Status: Edição única
Número de páginas: 100
Formato: (14,5 x 22 cm)
Colorido/Lombada quadrada

Preço de capa: R$ 55,00

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